Publicado por: Clebson Ribeiro | 04/11/2008

Psicologia e Informática – A dificuldade nas relações técnico-profissionais

O assunto “formação de equipes” é tratado por diversos autores, principalmente os seguidores da psicologia social pois se trata de uma interação entre pessoas, uma interação social com objetivo bem determinado.

A profissão de Analista de Sistemas possui características e competências pré-determinadas, tais como as aptidões relativas à área de informática e o perfil da personalidade ou as características mais profundas do temperamento e do caráter de um indivíduo. Os traços da personalidade indicam as potencialidades e as limitações do indivíduo para uma determinada profissão, conforme (OLIVEIRA, 1995) e resumidas abaixo.

Área Profissional Informática

Conjunto de atividades ligadas ao uso dos mais diversos meios de comunicação, envolvendo aplicação de conhecimentos, pesquisas, desenvolvimento e formação e análise de sistemas.

Aptidões relativas à área escolhida
Percepção espacial
Memória
Atenção

Traços da Personalidade
Atenção concentrada
Capacidade de análise
Criatividade
Memória
Meticulosidade
Método
Organização
Responsabilidade

Conforme sabemos, o método utilizado no desenvolvimento dos projetos de sistemas é o método cartesiano. As regras propostas por Descartes, constituindo-se em um método, reúnem os quatro principais fatores de redução de problemas evidência, análise, (síntese e desmembramento). Desta forma, Descartes procura reduzir um problema complexo a suas noções simples. Para Descartes, a aplicação recursiva do método torna problemas muito complexos em complexos, moderadamente complexos, pouco complexos, simples, muito simples, etc. (DESCARTES, 1996)

A definição do perfil profissional do analista de sistemas, segundo o manual de profissões (OLIVEIRA, 1995) é adequada para o padrão técnico de desenvolvimento de sistemas, mas não determina se o profissional de desenvolvimento de sistemas possui habilidades sociais ou como este profissional se sairá em uma situação de conflito ou de estresse. De fato, os resultados da pesquisa não sugerem uma falha neste perfil profissional, mas em uma habilidade não prevista neste mesmo perfil, qual seja a habilidade interpessoal. Por outro lado, o usuário também não necessariamente apresenta qualidades interpessoais, e isto aumenta a probabilidade de que os resultados conseguidos na pesquisa sejam amplificados. Estamos aqui tratando da interação de duas ou mais pessoas, com expectativas diferentes e expostas ao estresse do desconhecido. Este cenário é o favorável para o fortalecimento das defesas ou dos mecanismos de defesa presentes em todos nós.

“Os mecanismos de defesa servem ao propósito de manter afastados os perigos. Não se pode discutir que são bem-sucedidos nisso, e é de duvidar que o ego pudesse passar inteiramente sem esses mecanismos durante seu desenvolvimento. Mas é certo também que eles próprios podem transformar-se em perigos. Às vezes, se vê que o ego pagou um preço alto demais pelos serviços que eles lhe prestam. O dispêndio dinâmico necessário para mantê-los, e as restrições do ego que quase invariavelmente acarretam, mostram ser um pesado ônus sobre a economia psíquica. Ademais, esses mecanismos não são abandonados após terem assistido o ego durante os anos difíceis de seu desenvolvimento. Nenhum indivíduo, naturalmente, faz uso de todos os mecanismos de defesa possíveis. Cada pessoa não utiliza mais do que uma seleção deles, mas estes se fixam em seu ego.” (FREUD, 1997-1)

Ao longo de sua obra, Freud descreve alguns destes mecanismos de defesa, que embora verificados por Freud em ambiente clínico, podem ocorrer em todas as relações humanas, inclusive nas relações profissionais. Embora não determinantes para o sucesso ou fracasso de um projeto profissional, tais mecanismos têm forte influência nas relações entre os componentes de um grupo e influenciam diretamente nos resultados e nas expectativas destes grupos.

Os mais aderentes ao assunto que estamos tratando são :

Formação reativa - fixação de uma idéia, afeto ou desejo na consciência , opostos ao impulso inconsciente temido.

Projeção - sentimentos próprios indesejáveis são atribuídos a outras pessoas.

Racionalização - substituição do verdadeiro, porém assustador, motivo do comportamento por uma explicação razoável e segura; e

Anulação - através de uma ação, busca-se o cancelamento da experiência prévia e desagradável.

É inegável que a relação Usuário / Analista de sistemas é uma relação de poder, onde o usuário, em posição desfavorável, teme perder o emprego, conseqüentemente dinheiro e poder, afinal está repassando ao analista de sistemas todo o seu conhecimento sobre um assunto que aprendeu a duras penas e ao longo de muitos anos de trabalho, e sacrifício, que será “ensinado” a um computador que vai democratizar um saber tão sofridamente adquirido e passar a fazer este trabalho muito mais rápido, sem ficar doente, sem tirar férias, etc. O analista de sistemas, na visão deste mesmo usuário, é a pessoa designada e capaz de “sugar” este conhecimento, transferindo-o para o computador.

A falta de sensibilidade do analista de sistemas a respeito das inúmeras expectativas do usuário, tais como melhoria da qualidade de trabalho e melhoria nos resultados dos processos funcionais com a utilização de tecnologia, que extrapolam as expectativas puramente técnicas interferem, muitas vezes, de forma negativa nos resultados do processo de desenvolvimento de sistemas, mais notadamente no processo de entendimento das necessidades do usuário. Este encaminhamento distorcido vai comprometer as relações entre o profissional de sistemas e o usuário, culminando na mútua insatisfação e na inadequação da solução desejada por ambos.

Os impasses que daí resultam, afetam tanto ao usuário quanto ao analista de sistemas, nesse sentido, ainda que não seja o propósito deste trabalho aprofundar a teoria psicanalítica, esta situação que afeta a ambos pode ser relacionada com o conceito de transferência trazido por Freud e utilizado ao longo de sua obra. Ainda que esta teorização sobre a transferência tenha partido de experiência clínica, é, basicamente, deste campo da clínica que surgem as maiores possibilidades de aprofundar este conceito.

Neste caso específico, não estamos falando apenas de uma relação entre um analista e um usuário, pois em situações reais, equipes de analistas de sistemas trabalham com equipes de usuários para a modelagem do sistema a ser desenvolvido. Estamos, porém, em uma situação onde pessoas estão reunidas, estamos falando de grupos de trabalho.

“Um grupo consiste de duas ou mais pessoas que interagem e partilham objetivos comuns, possuem uma relação estável, são mais ou menos independentes e percebem que fazem, de fato, parte de um grupo.” (HALL, 2000).

Mais especificamente estamos lidando com o que se define como Sociogrupos

“aqueles cujas relações entre os membros existem principalmente em função de os membros trabalharem juntos em vista a alcançar algum objetivo (Time profissional)” (HALL, 2000).

As duas definições combinadas, uma vez que sociogrupo é um sub-conjunto de grupo, nos leva à reflexão sobre a forte influência do individual no comportamento do sociogrupo, neste caso específico. Casos de não conformidade, requisitos incompletos, prazos não adequados, uso de linguagem excessivamente técnica, falta de comprometimento de ambas as partes (analistas e usuários), todas essas causas apontadas na pesquisa, nos soam como um processo individual, calcado nos mecanismos descritos, e que irão atuar na dinâmica natural do grupo influindo diretamente nas relações e na estrutura de poder.

A posição de destaque do analista de sistemas, nesta estrutura de poder e de insegurança favorece o aparecimento da transferência dentro do processo de desenvolvimento de sistemas. A utilização de instrumentos técnicos de observação e compreensão podem favorecer ao processo de assimilação, bem como minimizar os processos transferenciais inerentes a relação profissional.

Conclusão

O profissional de sistemas (analista de sistema, programador, etc) deve ter a certeza de que está escutando o que o seu cliente diz, deve assegurar que este conhecimento foi passado de forma clara porém deve se lembrar que a passagem de conhecimento jamais será definitiva e ou completa. Usar um método, porém jamais esquecer a relação humana presente naquele momento da transferência de conhecimento. A preparação para este momento é árdua pois os profissionais da área de informática têm uma formação essencialmente voltada para a técnica, para os métodos e ferramentas de construção de sistemas, assim a formação humana, a escuta, o comportamento perante o interlocutor ficam relegados a um segundo plano, sendo que em alguns casos a plano nenhum.

É Importante, neste momento, rever o texto “Por que é tão complicado desenvolver sistemas?” e o resultado da pesquisa realizada entre profissionais e usuários de informática, para se ter uma melhor compreensão do restante deste texto.

 

Pergunta: QUAIS OS TRES MAIORES PROBLEMAS ENFRENTADOS PELOS USUARIOS DE INFORMATICA, NO QUE SE REFERE AOS PROFISSIONAIS DE INFORMATICA, NO DESENVOLVIMENTO DE PRODUTOS (SISTEMAS, WEB SITES, APLICATIVOS, ETC.) ?

Problema apontado

F

%

São os próprios profissionais. Eles nunca conseguem expor as idéias e o projeto de maneira que o usuário possa entender. O linguajar é muito técnico.

23

48%

Profissional correto, mas a empresa não sabe bem o que quer, sabem que possuem uma deficiencia em determinado sistema, e as solicitações que chega à este profissional é totalmente destorcida, causando serios problemas.

9

19%

Falta de atualização das novas tecnologias em softwares por parte dos profissionais e empresas.

8

17%

Falta de honestidade destes profissionais

8

17%

Dependência de suporte técnico

6

13%

Pegar trabalhos iniciados no meio

6

13%

O profissional de programação tende a achar que o seu programa é perfeito e que o usuário não sabe nada de programação – ele pode não saber nada de programação, mas sabe onde o programa não está atendendo as suas necessidades.

6

13%

Fator tempo – Geralmente a área demora demais para desenvolver um programa, precisamos de intermináveis reuniões, às vezes cansativas
e o cronograma é sempre muito longo.

3

6%

Falta de compreensão mútua dos respectivos universos de trabalho.

2

4%

Total

48

 
     

 

Pergunta: QUAIS OS TRÊS MAIORES PROBLEMAS ENFRENTADOS PELOS PROFISSIONAIS DE INFORMÁTICA NO DESENVOLVIMENTO DE PRODUTOS (SISTEMAS, WEB SITES, APLICATIVOS, ETC.) ?

Problema apontado

F

%

Uma melhor definição do que o usuário necessita para o desenvolvimento de um Sistema.

76

29%

A baixa qualidade dos profissionais envolvidos tanto para o desenvolvimento como para o teste dos softwares.

53

20%

Escopo, prazo e custo.

51

19%

Falta de reconhecimento, desvalorização

29

11%

Falta de comprometimento do cliente

27

10%

Suporte Técnico

14

5%

Propensão para não elaborar documentação de sistema. A documentação é um fator muito importante em quaisquer fases do projeto. Geralmente, durante o desenvolvimento do mesmo, devido a tempo, as pessoas não elaboram normas técnicas ou padrões de documentação adequadas a cada fase do projeto.

6

2%

Encontrar software livre p/ desenvolvimentos, ou até mesmo proprietário mas a um custo mais acessivel.

6

2%

Total

262

 
     

 

 

Uma análise estratificada dos resultados nos mostra que 49% dos profissionais de informática apontam a dificuldade de entendimento da necessidade do usuário aliados à sua própria incapacidade de lidar com a complexidade destas necessidades como pontos principais entre os problemas enfrentados pelos analistas de sistemas no desenvolvimento de sistemas de computador. Os resultados obtidos com os usuários mostram que 67% desses profissionais apontam a linguagem “muito técnica” dos analistas de sistemas aliados à própria incapacidade dos usuários de exprimir suas necessidades, resultando em especificações informadas aos analistas de sistemas “totalmente distorcidas”.

Uma certa dose de “narcisimo” por parte dos analistas de sistemas foi apontada por 13% dos usuários entrevistados que também se sentem desvalorizados em seu trabalho em 11% das respostas, além disso, 10% dos analistas apontaram a “Falta de comprometimento do cliente” como possível causa para o fracasso nos projetos de desenvolvimento de sistemas, falta de comprometimento que pode ser apenas um reflexo ou uma relação de causa e efeito dos resultados anteriores. Por sua vez, os usuários apontam uma possível “Falta de honestidade” dos analistas, em 17% das respostas, como um fator relacionado ao fracasso nos projetos.

Os resultados nos remetem uma primeira conclusão de que existiria uma busca idealizada de algo que poderíamos chamar de “Esperanto cibernético” (WIENER, 1978), ou seja, uma linguagem universal que resolveria definitivamente os problemas de comunicação entre profissionais de informática e usuários de desenvolvimento de sistemas para computador, todavia, embora esta conclusão seja parte da conclusão final, outras variáveis estão envolvidas neste processo de interação em busca do entendimento de necessidades e desejos latentes.

Texto de Ricardo Portella

Fonte Profissionais de tecnologia


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